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15 agosto 2021

A Guerrilha do Araguaia - Texto de Victor S. Gomez

A Guerrilha do Araguaia - Texto de Victor S. Gomez

Alguns anos mais tarde resolvi voltar para casa. Saí de lá antes do Festival de gigante que todos falavam que iria acontecer. Mal sabia eu que algum tempo depois vários festivais de rock pipocariam pelo mundo, até mesmo no Brasil.

Desci pelo México e passei por Teotihuacán, Cidade Maia. Nunca acreditei que aquilo teria sido feito por nós, agora menos ainda. Alguém poderia me explicar como povos distantes tiveram todos a ideia de construir pirâmides, feitas com pedras enormes? Todas maiores que um carro e algumas gigantescas.

O tempo é senhor de tudo, brinca conosco, e nos faz pensar em como passamos tão rápido por aqui. Isso nos mostra o quão pequeno nós somos, e o quão insignificantes também. O tempo que fiquei por ali, todas as noites eu contava as estrelas, como também meus antepassados teriam feito. Imaginando que o céu era um manto escuro e todo furado por onde a claridade do dia passava.

Uma semana depois continuei minha caminhada, pegando carona em caminhões, carros, carroças, o que parasse e deixasse eu entrar, até chegar em Leticia, cidade da Colômbia que ficava na fronteira com o Brasil.

Em meus ouvido ainda ecoavam os versos dos doces poetas Beats, e as música do violeiro solitário com suas letras quilométricas e cheias de verdades. Mas o que eu não sabia é que perto daqui o que soava eram as balas das espingardadas dos soldados que tentavam capturar meia dúzia de garotos que achavam que iriam mudar o mundo com sua paixão suicida. O medo se instalava pela região e era avassalador. 

Há muito a solidão se fez de minha irmã e me acompanhava por onde eu fosse. Mas graças a Deus conheci Jane, Téo e Luci eles estavam descendo rumo ao Planalto Central, então seguimos juntos. Pelo caminho me disseram que o exército abriu estradas e estavam por toda região do Araguaia. Milhares deles atrás de um pequeno grupo de sonhadores, que a todo custo lutavam contra a escuridão que descia sobre nosso país.

Já estávamos naquela estrada fazia um dia e meio, há horas só comíamos poeira, quando um jipe Rural resolveu parar. Um casal de senhores eles ficaram preocupados com as meninas que estavam grávidas. Muitas meninas naqueles anos resolviam viajar quando estavam gravidas, a gravidez era uma espécie de proteção. E foi isso que nos salvou quando um jipe do exército coalhado de soldados nos parou. Eram todos meninos também. Meninos caçando meninos. Quando perceberam as meninas gravidas nos liberaram. Naquele grupo tinham bons meninos. Por incrível que pareça eram respeitadores. Demos muita sorte. O senhor que dirigia a Rural era bem calmo, era advogado e tinha endereço em Brasília, o que nos ajudou também. Nosso país estava triste, mas ninguém podia falar sobre isso.

Brasília, a sufocante Brasília, onde muitas vezes o vento corre seco. Não tem botequim, nem esquinas, como as pessoas se encontram aqui? Nunca gostei de lá. Depois que chegamos me despedi de todos, nos abraçamos muito e cada um seguiu seu caminho. O sol do planalto caindo no entardecer, avermelhava o horizonte entristecendo um pouco a nossa despedida. Agora eu estava novamente caminhando para casa. Um leve sorriso se abriu em meu rosto quando lembrei dos meus pais, irmão e amigos.

Um comentário:

  1. Me vi nessa estrada através do belo texto, numa época difícil e triste de nossa história.

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