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08 maio 2019

Uma Certa Rua Deserta - Victor S. Gomez

Muitas coisas que acontecem em nosso mundo real nos parecem tão irreais que talvez nem sejam daqui, quem sabe isso esteja acontecendo em um universo paralelo, num mundo onde o realismo fantástico seja normal. Se esse mundo existisse ele seria feito do medo que todos nós temos, medo do que vemos todos os dia nos telejornais, um morto aqui, um assalto acolá, ou um tiroteio em frente a uma escola pública e atingindo nossas crianças. Quem sabe as redes sociais são culpadas por isso, por soltar noticias falsas todos os dias, todas as horas, são tantas que as pessoas nem checam mais, e as aceitam e compartilham como se fossem as mais verdadeiras. E o ódio que divide nosso povo se avoluma, aumenta a cada dia, com pessoas que mastigam essas mentiras e as vociferam para cima de outras pessoas, que muitas vezes nem sabem o que está acontecendo. 

A mentira e ódio compartilhados podem dividir e destruir uma nação. Victor S. Gomez


Uma Certa Rua Deserta , do Livro de Victor S. Gomez, Universo Interior.

Lá ia eu, naquele sobe e desce, parecia até um ioiô, para cima e para baixo, pela Rua da Garapa rumo ao galpão da feira livre, como fazia todos os domingos. Eu já tinha me acostumado, com aquele sobe e desce da Rua da Garapa, toda cheia de lombadas. Era cansativo, mas ainda era o caminho mais curto para a feira. Aos domingos no galpão, toda cidade se encontrava para colocar os assuntos em dia. Desde a venda de uma vaca até comentários maldosos sobre quem dormiu com quem ou quem bebeu demais e não chegou em casa. Desse jeito é que se colocavam os assuntos em dia aqui na minha cidade. No final da Rua da Garapa era obrigatório virar à esquerda ou à direita e para se chegar ao galpão da feira, não era permitido seguir em frente. Não que fosse impossível ir em frente, não havia nenhum morro impedindo a passagem, apenas aquelas duas placas, uma apontando para a direita e a outra para a esquerda. Eu não entendia muito bem essa situação porque como todo mundo podia ver aquela rua não acabava ali. Ela continuava. Não igual ao caminho anterior cheio de lombadas, mas igual a uma rua normal, plana, com lojas, calçadas e postes. Só com uma pequena diferença: por lá não passava ninguém. 

No tempo anterior à revolução, o povo ainda não estava dividido. As pessoas eram alegres, a cidade fervilhava com as novidades vindas da capital e expostas nas vitrines das lojas dos judeus da Rua da Garapa. Era meu pai que contava essas histórias. Contava também como a revolução chegou e acabou com toda a alegria, trazendo tristeza e dividindo o povo de nossa cidade. E de como a Rua da Garapa ficou cheia de lombadas. Meu pai me dizia que antes da revolução não existiam lombadas nessa parte da rua. Tudo começou altas horas da noite, quando as máquinas do governo chegaram e começaram o trabalho. Os operários estavam protegidos por um forte esquema de segurança, formado por soldados da Guarda Nacional, para evitar ataques dos revolucionários. Aquilo tudo se fazia desnecessário, pois há muito os rebeldes foram vencidos e escorraçados para o outro lado do Mar Grande. Eles faziam sempre assim quando queriam fazer a coisa parecer importante. Foi nesse dia que começaram a fazer as lombadas e colocaram as placas. Meu pai dizia também, que as lombadas eram para cansar as pessoas, para que quando chegassem ao final daquele sobe e desce estarem tão exaustas, que nem questionariam aquelas placas. Simplesmente virariam à esquerda ou à direita. Eu tinha contado mais ou menos umas cento e trinta e nove lombadas. Uma verdadeira montanha russa, era para cansar mesmo. Usava esse caminho toda vez que ia à feira. Acho que era porque não me conformava com essas lombadas e nem com as placas. Eu ia pela rua pensado e tentando entender a razão do motivo de ter que virar à esquerda ou à direita se o caminho ficava mais curto se eu seguisse em frente. Uma certa rua deserta, era como ficou conhecida essa parte da Rua da Garapa, além das fronteiras da nossa cidade. Logo depois da criação das lombadas e da colocação das placas, vieram repórteres da capital e até do exterior. Algumas empresas de turismo incluíram nossa cidade em suas rotas turísticas. Todos queriam conhecer a rua onde não passava ninguém. Mesmo as pessoas de nossa cidade iam até lá, inclusive aquelas que já tinham passado pela rua várias vezes antes de seu fechamento e até mesmo comprado em suas lojas. No princípio as autoridades daqui, vendo o grande movimento de pessoas indo à Rua da Garapa, passaram a colocar guardas e uma cerca para impedir a passagem. Mas logo viram não ser necessário, pois todos respeitavam as placas. Tinham medo do que não entendiam.  

Meu pai foi um dos primeiros a ir lá depois da divisão da Rua da Garapa. Ele também foi um dos primeiros a se alistar e a lutar lado a lado da Guarda Nacional na época da revolução. Lembra dos primeiros combates onde as baixas foram 
grandes de ambos os lados, mas pouco a pouco a superioridade numérica e o maior preparo militar dos soldados da guarda foram sendo sentidos. E lembra, também, do dia da grande vitória, no qual todos os revolucionários sobreviventes corriam em desnorteada carreira na direção do mar. Do lado da Guarda Nacional a euforia era grande, todos comemoravam a vitória com gritaria e tiros para o alto. Do lado dos rebeldes, o desespero e o medo. Eles fugiam em pequenas embarcações pelo Mar Grande. Eram o mesmo povo, mas nesse momento estavam tão distantes quanto a grandeza do mar que agora os começava a separar. Meu pai só não se lembrava por que tinham fechado a Rua da Garapa, nem o motivo da revolução. 

Eu tinha parado diante das placas enquanto relembrava essas coisas. Mas dessa vez não viraria nem para um lado nem para outro. Ia seguir em frente. Sabia que seria um caminho sem retorno, como o escolhido pelos revolucionários, mas eu já tinha certa idade e devia decidir meu próprio destino. Sei que isso talvez me separe dos outros habitantes da cidade, como o Mar Grande separou o nosso povo, mas eu já tinha escolhido o meu caminho. Começava agora para mim uma nova vida.

Onde comprar o livro Universo Interior:
Autor do livro Universo Interior, Victor S. Gomez é Escritor, Empreendedor Social e Educador Social
Primeiro lugar no Prêmio Olho Vivo 2014 - Volta Redonda - RJ
Veja a página do escritor no site da Editora Patuá.
https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/40926/universo-interior-de-victor-s-gomez

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