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08 novembro 2018

O Gemido das Plantas - Conto de Victor S. Gomez

Do livro Universo Interior, vencedor do Prêmio Olho Vivo 2014.
Veja a página do escritor no site da Editora Patuá.
https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/40926/universo-interior-de-victor-s-gomez


O Gemido das Plantas - Victor S. Gomez

Era um dia de sol forte, muito quente e sem vento. Começou baixinho, quase imperceptível e aos poucos foi se tornando mais alto. Era um barulho diferente, parecia um terremoto. Só tinha escutado algo parecido quando era pequeno e colocava o ouvido sobre os trilhos do trem, que passava por trás do Morro do Chapéu, distante alguns quilômetros da minha casa. Tinha o costume de ir até lá por causa das pitangueiras do “seu” Ricardo, sempre carregadas no final da primavera. Depois, de barriga cheia, ia esperar o trem passar. Para saber se ele estava perto, colava o ouvido no trilho e esperava o barulho crescer. Agora, porém, era outro o barulho que crescia. Podia até saber de onde vinha, já não estava muito longe. Pela intensidade, sabia que havia passado pela Ponte das Lavadeiras e, nesse momento, devia estar perto da porteira da Fazenda dos Amores. A essa distância a poeira levantada podia ser vista daqui. Era uma nuvem amarelada, enorme. Quanto mais o barulho aumentava, maior ficava. Quando o barulho já se tornava ensurdecedor elas apareceram na curva da estrada. Em meio à poeira, as formas das máquinas foram se definindo até se tornarem nítidas. Eram tratores com pás na frente para abrir caminho. Eles vinham em fila pela estrada, dois a dois, num mesmo ritmo, até parar na frente do terreno do “seu” Romão. 

O começo ninguém sabe. Acho que foi com a chuva de meteoros. Naquela noite fria de julho eu os vi riscando o céu quando voltava de uma festa na cidade. Mas o que achei mais impressionante era que eles caíram somente nas terras de “seu” Romão.Corri para lá. Queria ver como eram. Parecia chuva de granizo. Eram pedras pequenas, do tamanho de bolas de gude. Fiquei parado na cerca admirando aquelas pequenas pedrinhas brilhantes caindo no chão e formando minúsculas crateras no terreno arenoso. No dia seguinte, quando ia para a escola, passei pelo mesmo local onde aconteceu a chuva de meteoros. Enquanto caminhava pela estrada, notei um movimento maior do que o normal. As pessoas passavam por mim apressadas. Tinha gente de bicicleta, carroça, a cavalo, a pé. Estranhei aquilo tudo e só fui entender melhor quando cheguei ao terreno do “seu” Romão. Uma multidão boquiaberta estava parada em frente à cerca do terreno. Todos perplexos. O local estava cheio de plantas. Não havia espaço para mais nada. Elas se amontoavam umas sobre as outras e chegavam a transbordar pela cerca. Mas não era esse o motivo do espanto daquelas pessoas. Nem mesmo o fato de naquele terreno arenoso, um dia antes, só haver uma pequena plantação de mandioca e agora estar tomado de plantas, deixava aquele povo mais assustado. O que as apavoravam é que aquelas plantas estavam gemendo. Quando conseguiu chegar à estrada, “seu” Romão se viu cercado pelas pessoas, que perguntavam tudo ao mesmo tempo. Mal dava para ele respirar, tamanha era a multidão que se amontoava ao seu redor. Aos poucos, foi conseguindo falar e disse o pouco que sabia sobre aquilo tudo. Tinha acordado bem cedo, como de costume, e já se preparava para fazer o café quando percebeu um ruído estranho. Era como se dezenas de gatos estivessem no cio. Foi à janela, que parecia estufar para dentro, tentou abrir o trinco de ferro e só conseguiu depois de várias marteladas. Com a pressão que as plantas faziam, a janela abriu com tanta força que o jogou em cima da pequena mesa de madeira no meio da sala. As plantas caíram para dentro da sala, tomando conta de mais da metade do cômodo. Assustado, notou que a porta estava do mesmo jeito. Por ali também não dava para sair. Pensou no que estava acontecendo, não entendeu nada. Teve, então, a ideia de por uma cadeira em cima da mesa. Tirou uma telha e alcançou o telhado. Notou que somente o seu terreno estava assim. Viu também as pessoas chegando e se aglomerando na estrada. Era difícil entender. Tentou se acalmar. Foi até a cozinha, pegou o facão e saiu. Teria de ser pela janela mesmo. Não se arriscaria a abrir a porta para ser jogado longe. O facão estava bem afiado, como ele gostava. Ao começar a abrir caminho, a gemedeira aumentou, mas não quis nem saber, seguiu em frente e só parou depois de cair exausto do outro lado da cerca. 

Naquela tarde a notícia já tinha se espalhado para além dos lados do Morro da Cerração. À noitinha, atravessou o município e na manhã seguinte os primeiros carros começaram a chegar. Parecia romaria: os carros chegavam em fila, atravessavam a cidade e iam direto para o terreno do “seu” Romão. “Seu” Camargo, dono da Fazenda dos Amores, arrumou uma forma de ganhar mais dinheiro e aumentar sua fortuna. Abriu um estacionamento no terreno da fazenda. Teve gente que começou a montar barraquinha para vender de tudo. Os primeiros caminhões chegaram ao fim da tarde, os soldados foram descendo e tomando suas posições. Enquanto alguns arrumavam o terreno e armavam tendas de campanha, outros tratavam de desmontar as barraquinhas e expulsar os curiosos. Disseram que ninguém poderia ficar a menos de 500 metros de distância do local. Bem antes do raiar do dia toda aquela parafernália estava armada. “Seu” Romão foi o único que teve permissão para ficar. Talvez para tentarem tirar dele algo mais, que ele mesmo não sabia. Depois de o levarem para o imenso caminhão branco, o maior deles, ficou mais esquisito ainda. Parecia que tinham tirado algo do cérebro dele, não falava coisa com coisa, saiu perambulando pelo meio do acampamento e nunca mais foi visto. Dentro do caminhão diziam haver coisas que até Deus duvidava. Era uma espécie de laboratório sobre rodas, tinha de tudo lá dentro. Os homens que lidavam com as coisas do laboratório estavam sempre de branco e, às vezes, usavam roupas estranhas, principalmente quando iam recolher amostras das plantas para pesquisar. Eu tinha ouvido falar de coisas parecidas, acontecidas além do Golfo de Péricles. Pesquisadores haviam desenvolvido bactérias que comiam gelo e tiveram grande dificuldade para controlá-las quando algumas escaparam e começaram a devorar as grandes geleiras do Norte. Como o gelo é formado de água e a água é formada de oxigênio, o medo dos cientistas era de que, depois da água, todo o oxigênio da Terra fosse consumido pela insaciável praga. Não sei como isso acabou. Só sei que os cientistas, aqui, não descobriram nada. Por isso é que os tratores vieram. Depois de passar por mim, foram direto para a cerca, posicionaram-se lado a lado e, à ordem do comandante, avançaram juntos na direção do terreno. As pás-mecânica arrancavam as plantas, que faziam grande alvoroço, como se estivessem chorando, sentindo dor. Mas isso não impedia o trabalho dos tratores. Depois de reunirem os montes numa imensa montanha verde, jogaram por cima um líquido de cheiro forte, parecendo gasolina. E foram colocando fogo pelas beiradas. Em poucos minutos, o amontoado de plantas ardia em chamas e as labaredas quase chegavam ao céu. Os gritos saídos daquele inferno se tornavam mais fortes e, ao mesmo tempo, mais espaçados, até acabarem por completo. Aquelas plantas, antes vivas e verdes, agora não passavam de um monte de cinzas. Estava acabado. Rapidamente tudo foi desarmado. Restou apenas o terreno arenoso e sem vida. O terreno do “seu” Romão.

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