05 abril 2018

Desabafo de um Professor de História

Recebi esse texto do forum 3setor do Yahoo Grupos, que foi enviado pelo amigo Carlos R. S. Moreira Beto <carlos.moreira.beto@gmail.com>

"Estou saindo para ministrar aulas aos meus alunos...
Ao longo de 34 anos de Magistério, como professor de História, debati os temas da história do mundo e do nosso país com eles. Discuti princípios democráticos e mostrei os graves momentos em que eles foram violados, lá fora e aqui, no Brasil.
Analisei como, ao longo da história mundial e nacional, as elites econômicas manipularam a Política e a Justiça em favor dos seus interesses.
Debati as importantes diferenças entre regimes totalitários e democráticos.
Meus alunos aprenderam junto comigo a importância do respeito ao Estado Democrático de Direito para que todos, pobres e ricos, políticos de famílias tradicionais ou populares, defensores de qualquer ideologia partidária, integrantes de qualquer raça ou credo, todos, rigorosamente todos, tenham tratamento igualitário dispensado pelo Estado.
Com meu exemplo, procurei ensinar aos meus alunos que, no fecundo exercício da cidadania, nós temos que assumir posições, posturas. Ensinei, com meu próprio exemplo, que não podemos ficar passivos diante de injustiças.
Procurei partilhar com os meus alunos o sentido da resistência às práticas violadoras das liberdades e dos direitos humanos. Partilhei ideias sobre o significado da ordem constitucional, num país com longa tradição de arbítrio. Enfim, procurei dotar o meu mister profissional, nessas mais de três décadas de trabalho, de sentido cidadão. A própria Constituição ainda vigente me impõe a incumbência de ajudar a formar os meus alunos para o exercício da cidadania.
Iniciei minha carreira denunciando as mazelas da Ditadura em minhas aulas de História e hoje, estou indo para a sala de aula, sabendo que tem segmentos das Forças Armadas deste país, atentando impunemente contra a Constituição e intimidando, com a ameaças, a Corte Suprema da Justiça neste Estado combalido. Estou indo para a escola e refletindo quanto de totalitarismo, de fascismo, está presente no dia a dia dos alunos a quem ministro aulas agora.. Estou de saída para o meu trabalho e sinto que estamos na iminência de ver reforçado o caráter seletivo da Justiça, através da consolidação de decisões casuísticas que ratificam o caráter  partidário de uma corte que delibera a reboque das exigências de uma rede de comunicação que sempre serviu a golpes e fabricações de "ridículos tiranos"..
Estou indo trabalhar com um nó na garganta. Ele é equivalente às epidemias que disseminaram os índios desde o início da invasão das nossas terras pelos portugueses. O nó na garganta que sinto me aperta quase na mesma proporção da força do nó da corda que enforcou tantos que lutaram por independência para este País. O nó na garganta que sinto, traz à minha boca um gosto amargo de sangue, o mesmo sangue de tantos homens e mulheres negros que foram escravizados nesta Nação de injustiças. Esse nó absurdo aperta meu corpo com a força dos "paus-de-arara" que tanto maltrataram os lutadores deste país nos porões de uma ditadura que querem ressuscitar. Esse nó quer me sufocar. Por isso eu precisava desabafar. Sei que não são poucos aqueles que se sentem como eu neste momento. Mas, em respeito à memória de cada homem e mulher que sucumbiu lutando contra injustiças nesta terra de reprises, vou engolir esse nó na garganta, vou ministrar minhas aulas e vou continuar firme. Eles não vão nos intimidar! Eles não vão fazer minha caminhada parecer infrutífera. Eles não irão nos vencer!
Tudo só terminará quando tudo estiver acabado! Enquanto houver sangue e sopro no corpo, haverá espaço para a luta e para a esperança. Nós venceremos!

Iran Barbosa - Professor de História das redes Estadual e Municipal de Aracaju"


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