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27 dezembro 2017

Um Conto de Natal

Esse conto já foi publicado, mas coloco aqui como forma de presentear meus amigo pela passagem do Natal e Ano Novo.

Um Conto de Natal - Victor S. Gomez

Até àquela hora meu pai não havia chegado. A todo o momento eu perguntava se ele iria demorar muito. O ano todo eu pensava nessa data, e de como seria bom se todos estivessem ao meu lado nesse dia. Aguardei até as tantas, e em algum momento dormi.

Lembro-me apenas de algumas coisas que aconteceram na minha infância, tempos difíceis aqueles. Tempos de sombras e horrores, tempos em que a força era a senhora do mundo, tempo em que as pessoas sumiam, sem deixar rastros. Nunca ninguém era encontrado, por mais procurado que fosse. Até mesmo pessoas que nunca fizeram mal a quem quer que seja, desapareciam. Apenas por pensarem diferente dos outros, era motivo para sumirem de vez.

Os outros achavam isso normal. Achavam necessário. Uma forma de se manterem no poder. Mesmo que esse poder cheirasse a sangue. Dias negros aqueles. Uma palavra que divergisse era considerada uma ofensa mais séria, e lá ia o coitado, levado pelos outros, para longe, de onde nunca mais voltaria. Muitas pessoas concordavam com isso. O povo em algum momento se dividiu, uns acreditavam em algo, outros em uma coisa totalmente diferente. Só que ninguém conseguia explicar o que era diferente para um ou para outro. Apenas agiam por seus instintos e tentavam fazer valer sua opinião, mesmo que alguns segundos depois tudo não fizesse mais sentido. Eram como crianças que se juntavam para brincar, acabavam brigando, e um pouco depois, nem sabem mais porque brigaram. O problema é que não eram mais crianças e tudo tinham um peso maior que uma simples briga infantil.

Imagem Eddy Oliver

Lembro-me da minha mãe e da minha avó queimando livros no banheiro da nossa casa, para que a divergência do meu pai com aquilo tudo não fosse descoberta. Elas usavam uma bacia de alumínio, colocavam os livros e jogavam álcool por cima e acendiam um fosforo. Foram queimando os livros devagar, para a fumaça ficar pouca e não chamar a atenção dos vizinhos e dos que passavam pela rua. Lembro-me dessa cena como fosse hoje. Lembro também dos mantimentos comprados às pressas no mercado do bairro e armazenados no armário embaixo da pia da cozinha. Elas achavam que não poderiam sair à rua durante um bom tempo.

Ao longe eu via os tanques cruzando a ponte e indo em direção ao centro da cidade. Um arrepio cortava minha espinha. Rumores chegavam a toda hora, as ruas cheias, muita confusão e as pessoas sumindo, como num jogo de damas, onde as peças vão sendo comidas pelo adversário. De hora em hora os tanques passavam pela ponte, vinham da Vila Militar. Sempre eram cinco, mas não passavam todos juntos pela ponte. Eram muito pesados, passavam de um em um. Eram grandes, imensos para um menino de 11 anos. De uma cor meio esverdeada marrom. E o barulho ensurdecedor que faziam assustar a todos. 

Ao acordar, vi meu pai sentado na poltrona da nossa sala, a mesa de natal já estava posta, minha mãe entrando pela sala com prato principal esfumaçando. Meu irmão rodava um carrinho, que eu nem sei pra onde ia. Na TV em preto e branco, o jornal da noite anunciava o golpe que desuniu nosso povo durante um bom tempo. Era noite de natal e meu pai estava ali. Toda minha família estava ali. Tenho muito agradecer pelo sumiço do meu pai ter sido apenas um sonho. Pena que todo o resto seja verdade. Pena que tudo seja tão difícil para as outras tantas famílias e que elas não possam ter um natal como o meu.

Hoje já adulto ouço conversas sobre a necessidade da volta daqueles tempos. Que só a força é capaz de melhorar nossas vidas. Que grande engano. Que grande insensatez. Somente quem viveu aquilo tudo é sabedor de que a dor não cura mal algum.

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