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19 agosto 2009

Projeto Preguiça Valença-RJ

O trabalho do advogado Henrique Luth e do Biólogo Luciano, faz com que a AMA - Médio Paraíba se destaque entre as melhores instituições que conheço.

INTRODUÇÃO

1-Situada na sede do Município de Valença-RJ, no centro da cidade, a Praça XV de Novembro, conhecida popularmente como Jardim de Baixo, data do século passado cujo traçado foi elaborado pelo paisagista francês Augusto Glaziou, à pedido de D. Pedro II.
Outra característica, deste belo jardim, é a presença do bicho-preguiça, Bradypus variegatus, mamífero da Ordem Xenarthra (Edentata), que ocorre de Manaus a São Paulo, se alimenta de folhas tenras e, há pelo menos 50 anos, foi introduzido na praça. São antigos moradores que encantam o povo valenciano, despertando respeito e admiração.
Entretanto, já há algum tempo, tem-se observado que os animais vem caindo constantemente das árvores, sofrendo algumas vezes sérios ferimentos , que em alguns casos chegam a ser letais. Tais quedas se dão, principalmente, pelo estado de saúde das árvores, que estão parasitadas e com diversos galhos podres e próximos aos fios de alta-tensão, eletrocutando os animais.
Em virtude desse quadro, a Associação de Defesa do Meio Ambiente do Médio Paraíba (A.M.A.-Médio Paraíba) que é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 01/07/91 com sede na Praça da Bandeira, nº 184, Valença-RJ , CGC nº 39757034/0001-60, dentre outros projetos, desenvolve o “Projeto Preguiça”, que teve início em abril de 1996 e tem por objetivo levantar o maior número possível de dados sobre a população de preguiça-comum que habita a Praça XV de Novembro ou seja, o número total de animais, proporção de machos/fêmeas/filhotes, estado de saúde dos exemplares, dados a respeito de sua biometria, além do levantamento da flora do jardim. Com isso o projeto vem, desde seu início, interferindo neste Jardim, para oferecer melhores condições de alimentação, abrigo, reprodução, saúde e tranqüilidade para a população do Bicho-Preguiça.

2- Aspectos Geográficos do Município de Valença
O Município de Valença localiza-se na porção ocidental do Estado do Rio de Janeiro, na região do Médio Paraíba, com sede municipal determinada pelo paralelo de 22o 15’ 44” de latitude sul em sua interseção com o meridiano de 43o 41’54” de longitude oeste. Ocupa uma área de 1312 Km2, que vai do Vale do Rio Preto ao Vale do Rio Paraíba do Sul e está localizado a 154 Km da cidade do Rio de Janeiro. A sede do município está a 541m de altitude e o clima é do tipo tropical de altitude.

3- Praça XV de Novembro

3.1- Aspectos Históricos
A Praça XV de Novembro, conhecida popularmente como Jardim de Baixo, está situada na sede do Município de Valença, no centro da cidade. Sua área é de 16.800 metros quadrados.
Em 1860, antes de sua construção, existia apenas uma pastagem que era conhecida como Praça do Comércio, passando mais tarde a ser Praça Municipal, depois Praça da Constituição.
Foi sob a denominação de Praça D. Pedro II que foram dados os primeiros passos para transforma-la numa verdadeira Praça. Em 1865 era arborizada em seus contornos por mangueiras. Mais tarde, em 1884, foi providenciado seu fechamento com gradil de ferro e ajardinamento, cujo traçado foi efetuado pelo paisagista francês Augusto Glaziou.

3.2- Fauna e Flora
A flora da praça é bastante diversificada e numerosa. São 487 árvores plantadas, distribuídas em aproximadamente 76 espécies, além das espécies arbustivas e herbáceas. É constituída tanto de representantes da flora nativa, como o cedro, ipê, araucária, cerejeira, peroba, paineira, oiti, etc., como exótica: pinheiro, figueira, mangueira, palmeira-imperial, flamboyant, etc.
Essa flora constitui-se como um dos principais fatores relativos ao ambiente, que exerce influência na capacidade de sustentação de algumas espécies de animais, dentre os quais, o Bicho-preguiça. Grande quantidade de aves também utilizam os recursos dessa praça para sobreviver através do uso de abrigo ou de frutos para alimentação.

4 – Classificação
A preguiça de três dedos (Bradypus variegatus Schinz, 1825) é um mamífero da subordem Xenarthra, Família Bradypodidae, Gênero Bradypus Linnaeus, 1758, também conhecida popularmente como Preguiça-comum (Engelmann,1985) .
Observa-se que este animal apresenta pelame cinzento com manchas brancas no dorso. Face arredondada , destaca-se a testa branca e lista negra envolvendo os olhos. Presença de speculum (estrutura presente no dorso composto de pêlos curtos, negros e amarelos) nos machos adultos (Montgomery and Sunquist, 1978).
Seu período de reprodução está compreendido entre novembro e maio, filhotes são observados a partir de julho /agosto.
A gestação de um filhote leva aproximadamente sete meses. Estes animais são folívoros, de hábitos diurnos e noturnos.
Apresentam três dedos tanto nos pés como nas mãos. Peso em torno de cinco quilos aproximadamente .(Esbérard and de Barros, 1987).

4.1- Distribuição geográfica
Pode ser encontrada da Costa Rica, na direção da América do Sul à costa do Equador, através da Colômbia e Venezuela ( exceto pelo delta do Rio Orinoco a altas Guianas ), continuando à leste dos Andes através das florestas do Equador, Peru e Bolívia para o norte da Argentina (Montgomery and Sunquist, 1978). Ocorre no Brasil de Manaus à São Paulo .(Esbérard and de Barros, 1987).
Na lista da CITES II consta como principal ameaça a sua extinção a destruição do seu habitat , o tráfico e sua caça predatória ( Alberto Carlos,1989).

5- Projeto Preguiça

5.1 – Histórico do Projeto
Como já foi dito anteriormente, a população de Bradypus variegatus habita a Praça XV de Novembro há pelo menos 50 anos, com possibilidade de que este grupo habite o jardim há mais tempo. Esta data foi fixada através de entrevistas com moradores do entorno do jardim na faixa etária entre 40 e 70 anos de idade.
Como e porque estes animais foram introduzidos no jardim ainda é uma incógnita. Algumas praças contemporâneas da região, como nos Municípios de Piraí-RJ e Barra Mansa-RJ, também apresentam grupos de preguiças como habitantes. Talvez seja um costume da época introduzir animais silvestres nas praças para embelezá-las ou estes animais tenham se deslocados livremente para estes jardins, hipótese que considero improvável, já que a flora dos mesmos, naquela época, era representada em sua maioria por espécies exóticas, não constituindo uma atração para as preguiças.
O fato que levou a AMA idealizar o projeto foi a queda de um filhote no jardim, em 1996. A Prefeitura Municipal de Valença recolheu o pequeno animal e o repassou a ONG, que tentou recuperá-lo. Este filhote veio falecer e como não haviam nem as informações básicas sobre as condições daquela população de preguiça, neste mesmo ano a AMA-Médio Paraíba inicia sua pesquisa afim de colher dados necessários para um diagnóstico sobre as condições do jardim e a população de preguiça que o habita.

5.2 Metodologia
No início do projeto os animais eram capturados no solo, quando desciam das árvores para defecar ou se deslocarem. Como este processo era muito demorado, paralelo a captura no solo, ao animais passaram também a ser capturados nas árvores, usando técnica de alpinismo.
A marcação individual era feita pintando as unhas dos membros anteriores com combinações de cores. Cada combinação era referente a um número. Desde novembro de 1999 está sendo utilizado o sistema de marcação eletrônico com microchips e leitora modelo Pocket Reader da marca Trovan.
A pesagem era feita com o auxílio de uma balança para uso doméstico da marca Jonas, com capacidade para até 12Kg a intervalos de 250g. Desde janeiro de 2001 a pesagem é feita com balança eletrônica marca Filizola modelo BP-15.
Os animais são mensurados com fita métrica e a sexagem é feita através da visualização do speculum – estrutura presente no dorso dos machos composto por pêlos curtos, negros e amarelos.
Depois de medidos e pesados os animais passam por exame clínico para avaliação do seu estado fisiológico e então são devolvidos à árvore onde foram capturados.

5.3 Principais Casos Clínicos
Alê: macho encontrado e marcado com combinações de cores pela primeira vez no dia 07/06/96. Em 05/10/97 foi encontrado no jardim sem o membro posterior esquerdo, amputado provavelmente por um choque na rede de alta tensão. Foi operado para retirar as necroses no tecido e óssea em 06/10/97. Passou dois meses acolhido em nossas casas, e apesar de toda dedicação, apresentava-se muito deprimido. Apesar de sabermos ser muito difícil para uma preguiça sobreviver sem suas unhas pela dificuldade de deslocamento, em 04/12/97 foi devolvido ao jardim pois apresentava cicatrização razoável de seu membro amputado e permaneceu sobe nossa constante observação. Recebeu marcação eletrônica em 05/11/99. Apresentou um crescimento muito lento de seus pêlos raspados para a operação, pouco ganho de peso e frequentes quedas. Em 20/01/02 caiu da árvore e, como se apresentava um pouco prostrado, foi levado para “casa” onde não quis comer e morreu dormindo no dia seguinte.

Sempre foi carinhosamente chamado de “Alê”.

Camisetinha: jovem fêmea marcada com combinações de cores em 05/10/97 que teve o membro anterior direito engessado após uma queda junto com um galho podre em 16/11/97. Após constatar fratura, foi engessada e levada para “casa”. Ficamos esperando 11 meses por uma calcificação que não ocorreu, mesmo tendo sido tomadas várias medidas neste sentido e, apesar de Ter sido muito resistente ao stress do cativeiro, sendo nosso record neste aspecto, não resistiu e morreu em outubro/98.

Era chamada carinhosamente de “Camisetinha”.

Ângela:fêmea adulta marcada eletronicamente em 28/10/00, caiu da árvore no dia 26/11/00 provavelmente pela quebra de um galho podre justamente em cima da seta da grade do entorno do jardim. Sofreu então perfuração do tórax e rompimento da pleura. Considerada como um caso muito grave e de difícil recuperação, foi operada no dia seguinte de sua queda. Após uma semana de fortes medicamentos e na companhia do veterinário do projeto, foi para “casa” onde recebeu toda dedicação para que se recuperasse. Em 19/02/01 recebeu alta e foi devolvida ao jardim. Em 06/01 apresentava cicatrização total do ferimento e pelagem interna recomposta.

Ë carinhosamente chamada de Ângela.

Steve: macho adulto marcado por combinações de cores em 31/05/96, quando foi encontrado no jardim cego do olho esquerdo. Não foi descoberto o motivo da lesão tampouco há quanto tempo se encontrava neste estado. Aparentemente estava adaptado a esta deficiência, pois ganhava peso e não sofria quedas frequentes, a não ser quando encontrava um galho podre, o que ocorreu justamente em 27/10/02, quando caiu de uma grande altura e teve uma fratura completa do membro anterior direito. Foi operado, sendo colocado uma placa e seis parafusos no local da fratura e engessado. Estava em “casa” aguardando sua recuperação quando começou a apresentar dificuldade de movimentos dos membros posteriores, com suspeita de pinçamento na coluna. Começou então a fazer seções de acupuntura e se alimentava bem. Foi com tristeza que reagimos a sua morte em 24/12/02, pois ainda mantínhamos esperança em sua recuperação, mesmo sendo considerado um caso difícil.

Sempre foi chamada carinhosamente de “Steve”.

5.4 – Principais Conflitos
Os mais importantes conflitos relacionados com a população do Bicho-Preguiça no jardim são:

Rede de alta tensão: localizada principalmente no entorno do jardim, os animais usam-na como apoio para se deslocarem, levando violentos choques que causam desde queimaduras até amputamentos e morte;

Árvores senescentes: a principal causa das frequentes quedas das preguiças no jardim é o estado de saúde das árvores, que apresentam galhos podres, pela idade das mesmas e por falta de cuidados;

Grades com pontas de lança: em 1999, a cerca viva composta de arbusto que contornava o jardim foi substituída por grades de ferro com pontas de lança, onde ocorreu um grave acidente com uma fêmea de preguiça que , em uma queda ocasionada por um galho podre, teve o pulmão perfurado pela seta da grade.

5.5 – Proposta de manejo

Podas: em 1997, à pedido da AMA-Médio Paraíba, a Light fez uma poda em todo jardim, tirando os galhos que davam acesso aos fios. Desde então não houveram acidentes relacionados com choques. Essa poda deve ser feita, em média, de cinco em cinco anos, ou quando observado o conflito;

Melhoria no estado de saúde das árvores, com adubação dos canteiros e retirada dos parasitas;

Proteção das extremidades da grade do entorno do jardim com uma barra-chata de ferro cobrindo as setas. Este projeto ocorreu em parceria da AMA-Médio Paraíba e a Prefeitura Municipal de Valença, com o patrocínio da Farmácia Homeopática Lilium Homeopatia. A proposta inicial da AMA era de trocar as lanças por outro modelo de enfeite, de forma esférica, por exemplo. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e de Turismo optaram pela proteção das lanças com uma barra-chata. E assim, desde o segundo semestre de 2002, as grades do entorno do jardim encontram-se protegidas em suas extremidades na tentativa de evitar perfurações nas possíveis quedas dos animais sobre a grade.

Reflorestamento: a arborização do jardim, feita em 1884, teve como objetivo a estética e o estilo da época, não levando em conta a presença da fauna residente ou associada. Por volta de 1950, ou mesmo antes, foram introduzidos neste jardim exemplares de Bradypus variegatus, que tiveram de adaptar-se à vegetação exótica e pouco diversificada para sua alimentação, pois apenas 15,19% do número total de árvores servem de alimento para as preguiças. O reflorestamento visa principalmente melhorar a qualidade e quantidade de oferta alimentar para a população de preguiças residentes no jardim e, em consequência, para avifauna. Assim sendo, serão escolhidas espécies vegetais nativas da Mata Atlântica que fazem parte da dieta da B. variegatus, e plantadas de forma a não descaracterizar o estilo do jardim;

Educação Ambiental: sendo a Praça XV de Novembro bastante frequentada pela população que, de uma maneira geral, desconhece a biologia do Bicho-Preguiça e suas condições no jardim, durante todo trabalho de campo é distribuído um folheto educativo, mantido em exposição um quadro com informações sobre o Projeto Preguiça, e sempre que possível, realizada entrevista em jornal, rádio e televisão. Foram também instaladas placas no jardim contendo informações sobre a biologia do animal e a melhor conduta ao encontrá-lo.

Obs: A Coordenadoria Municipal de Projetos Urbanos e Paisagismo revitalizou a Praça XV de Novembro em 2004. O Lago existente foi reformado, foi perfurado um pouco para regas, colocado placas de identificação arbórea, além do reflorestamento.
Agradecimentos

É necessário destacar a participação de todos para realização deste projeto. Agradeço aos colaboradores, patrocinadores, à população valenciana que abraçou nossa causa, as famílias, que de vez em quando recebem em casa mais um “filho” para cuidar, aos amigos, que nos incentivam a continuar mesmo com tantos obstáculo e principalmente pelo trabalho voluntário dos membros da AMA, que são meus “companheiros de luta” e meus amigos, com os quais tenho o prazer de dividir tantas conquistas e dificuldades, tantos risos e lágrimas e especialmente a doce companhia das preguiças.

LucianaN. Consentino - Bióloga responsável técnica pelo projeto.

6– Referências Bibliográficas

ALBERTO,C.C.S.. Perigo de vida: Predadores e presas. Um equilibrio
ameaçado. ( Meio Ambiene), ed.Atual, 7a edição, São Paulo. 1989.

ENGELMANN,G.F. The phylogeny of xenarthra. In g.g.montgomery (ed) the evolution and ecology of sloths armadillos and vermilinguas. Smithsoniam intitution press, Washington,d.c.pp.51-64,1985.

ESBÉRARD, C. E. L. & DE BARROS, M. C.. Comunicado técnico.
Manutenção da Preguiça ( Bradypus variegatus ) em cativeiro. Fundação Jardim Zoológico da Cidade do Rio de Janeiro.1987.

MONTGOMERY, G. G., and M.E. SUNQUIST. The ecology of arboreal
folivores. Washington, D.C. Smithsonian Institution Press. 329-59, 1978.

2 comentários :

  1. Victor,

    Fiz uma visita ao site da AMA - Médio Paraíba para conhecer a associação e os projetos dela. As propostas e os trabalhos são interessantes.

    Eu entendo a necessidade do ser humano não transgredir o equilíbrio do meio ambiente e as transformações naturais ocorridas nele. Entendo, também, que o ser humano deve ficar, apenas, com a parte que lhe cabe nessa transformação sem lhe acrescentar o que não é devido.

    Sobre o projeto Preguiça Valença-RJ, considero necessário pelos motivos acima que eu descrevi.

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  2. Muitas das vezes julgo ser melhor transferir tais animais para preservá-los.

    Havia uma praça em São José dos Campos onde era habitado por preguiças. Com a urbanização desta importante cidade, vi com tristeza, uma vez que lá voltei, que não haviam mais preguiças, exterminadas por vários fatores decorrentes da urbanização.

    Não seria o caso da transferência de tais animais? Somos muito egoístas e às vezes queremos preservá-los para nós como se fossem nossa propriedade privada. Acredito que estes animais não são nossos. Eles têm sua própria identidade, suas necessidades e são eles mesmos. Por mais que queiramos protegê-los, nem sempre temos esta capacidade e às vezes é preferível deixá-los ir e tê-los do que tentar conservá-los e perdê-los para sempre.

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